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No meu tempo de colégio em Coimbra, que coincidiu com a Primavera marcelista, gostava de admirar as alunas veteranas do 6º e 7º anos (actuais 10º e 11º), que surgiam, aos meus olhos pré-adolescentes, como personagens romanescas: já tinham um namorado com quem se correspondiam, nesse tempo era assim, e vestiam de forma muito feminina (quando eu vinha familiarizada com o “estilo arrapazado” dos anos 70, das calças no inverno e dos calções no verão, provavelmente influência british no espaço-tempo onde nasci).
Foi a ouvi-las atentamente que fiquei a saber que o seu livro obrigatório no programa de Literatura Portuguesa era o Eurico, o Presbítero, de Herculano, e que um dos livros por elas mais lidos tinha um título muito moral e filosófico: Orgulho e Preconceito.
De tantos livros que vira nas estantes lá em casa nunca tropeçara naquele nem na sua autora, Jane Austen. Estranho... O mais engraçado é que entretanto já vi três filmes baseados em romances seus, primeiro o Emma, a seguir Sensibilidade e Bom Senso e depois este Orgulho e Preconceito e nada de ler os livros.
Portanto, foi pelos filmes que fiquei a conhecer as suas fabulosas personagens femininas. Sim, as personagens femininas de Jane Austen são adoráveis criaturas! Bem, nem todas, claro está, refiro-me apenas às personagens principais. Mulheres inteligentes e muito práticas, responsáveis por si próprias e pelos seus. E que valorizam os afectos de uma forma abnegada e leal. E de um raciocínio estratégico fundamental para poder sobreviver num mundo masculino.
Vi num documentário alguém chamar a atenção para esta característica nos romances de Jane Austen: não se fixa apenas no que é público, no social, mostra igualmente a realidade dos bastidores, da vida familiar, das preocupações financeiras, das dúvidas em relação ao futuro, das vidas das mulheres que procuram manter a qualidade de vida da sua família e a sua imagem ou estatuto social.
Neste Orgulho e Preconceito seguimos os acontecimentos pela perspectiva de Lizzie, a segunda filha de um casal brasonado que vive em pleno campo inglês. Além das qualidades geralmente presentes nas personagens femininas de Jane Austen, esta jovem mulher é muito decidida e orgulhosa. Funciona aliás como um pilar da família, mantendo a sensatez que contrasta com a superficialidade da mãe e a irresponsabilidade das irmãs mais novas. Tem uma grande cumplicidade com o pai, o único capaz de reconhecer o seu valor, e uma grande proximidade com a irmã mais velha, a que, das cinco irmãs, consegue conciliar beleza e simplicidade.
Um breve intervalo aqui para decidir como irei pegar neste filme de que gosto muito e que revi há dois dias na TVI, à meia noite (estes horários dos filmes na televisão é que não são nada adequados)...
Retomo aqui o fio à meada pela forma como, em Jane Austen, as personagens femininas mais interessantes são as que se apoiam mutuamente - as irmãs que são amigas, as amigas que são irmãs. Parte da sua força está nos laços subtis que vão entrelaçando entre si, de amizades que se alimentam com muito respeito e dedicação. Só assim também as suas vidas se podem tornar mais agradáveis e mesmo toleráveis, num mundo essencialmente masculino.
Referi aqui as personagens femininas mais interessantes, as protagonistas, que me parecem funcionar em Jane Austen como modelos que representam valores morais: a coragem, a amizade, a lealdade, a abnegação, a sensatez, a sensibilidade. A sua consistência está precisamente em não serem perfeitas e em terem uma mente autónoma, a consciência da realidade, dos condicionalismos da sua vida. Em algumas vemos o orgulho, noutras a determinação, noutras ainda a timidez. Todas observam o mundo em redor, há uma curiosidade natural pelas pessoas e pelas suas vidas, nenhuma se fecha sobre si própria ou se aliena em ilusões ou fantasias.
As personagens femininas de Jane Austen também são um pilar da família: a filha que se sensibiliza com a ingenuidade da mãe, a filha que se dedica ao pai, a filha que protege a família.
E há as personagens femininas secundárias, as pueris, as superficiais, as egocêntricas, as altivas, as dominadoras, as implacáveis. Todas as variantes de uma natureza feminina numa época tão limitativa para as opções de um percurso interessante.
É aqui que vejo a grande eficácia das mulheres de Jane Austen: para viver naquele cenário masculino, a ginástiva mental e emocional que precisam de treinar! A capacidade de observação e de inteligência prática, para antecipar acontecimentos ou despoletar outros que possam jogar a seu favor!
É certo que Jane Austen se dedica a analisar uma classe social com alguma margem de manobra, não é a vida-escravatura das mulheres sem quaisquer recursos. Mas nesta classe, as mulheres vivem diariamente o medo de perder o seu nível de vida ou de ver a família em dificuldades financeiras. Elaboram constantemente contas de cabeça, rendimentos ao ano, que podem fazer a diferença entre uma vida com algum conforto ou uma vida com muitas privações.
Voltando ao Orgulho e Preconceito, o que mais me impressionou:
- o movimento de todo o filme, desliza suavemente sem quebras ou sacudidelas, sem paragens bruscas nem atropelos, perfeito;
- as cenas dos dois bailes: a primeira, pela sua espontaneidade e alegria estonteante, tanto dos que dançam no salão, como nos que se passeiam pela casa, as conversas, os comentários; a segunda, pela coreografia poética, a revelar uma atracção entre aqueles dois aparentemente tão diferentes;
- a forma natural como vamos conhecendo as personagens, pelo seu comportamento e atitude;
- as cenas de bastidores da família Bennet, a forma como se adaptam a diversos registos e a diversas circunstâncias;
- a fotografia, aqueles enquadramentos clássicos, aqueles palacetes, aqueles jardins, o campo inglês...
Este é o papel de Keira Knightley, uma Elizabeth encantadora. Mr. Darcy aqui em jovem romântico tímido, mais belo e frágil do que a descrição que dele fazem as outras personagens e outras ainda de um outro filme, You' ve Got Mail, na conversa-duelo daqueles outros dois...
Os homens aqui em diversas paletas: o gentleman e amigo leal, o pai protector-afável e marido tolerante, o oportunista-arrivista, o ambicioso-servil, o ingénuo-carinhoso.
Ainda gostaria de voltar, um dia destes, a esta época de vidas simples em tempos difíceis, pela voz sensata de Jane Austen e o olhar poético de Ang Lee, no Sensibilidade e Bom Senso, que tanto me impressionou...
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